Lenda da Alamoa

"... fulva e cruel donzela, a fada do gênio mau da ilha presidiária de Fernando de Noronha, levando o terror por toda parte nas suas correrias noturnas..." (FONTE: Pereira da Costa, comentando especificamente essa lenda em "Folk-Lore Pernambucano").

Fala de uma mulher sedutora, de pele muito alva, longos e fartos cabelos louros, seminua que, em noites sem lua, com sortilégios e cantos envolvedores atraía os desavisados, levando-os a morte, nos penhascos e promontórios do arquipélago.

À semelhança da "Lorelay", sereia alemã em guarda no rio Reno, na saga germânica que pretende explicar o mito, ou da nossa Iara ou da "rainha do mar, "Yemanjá", de origem africana, também a "Alamoa" defende seu território, seduzindo e afastando aqueles que ousem aproximar-se dela. O nome é corruptela de alemã, por imaginarem-na como uma mulher descendentes dos muitos navegadores nórdicos que procuram aqueles espaços para abastecerem suas embarcações, depois de longas travessias pelo oceano desconhecido, sobretudo os holandeses, que permaneceram na ilha por 25 anos.

"A pele era clara, translúcida; a loira cabeleira lhe atingia os joelhos. Ela dançava, sacudindo os cabelos que ora envolviam, ora desvendavam bruscamente seu corpo. Os olhos, de um azul-marinho - como as águas que cercam a ilha - tinham mirada fixa, como a das serpentes, brilhando de lascívia" (FONTE: Descrição contida no livro "Roteiro de Aventuras nas Antigas Fortalezas do Brasil", de Josina e Nelson Correia).

Esta é a lenda mais famosa de Fernando de Noronha, repetida por todos os estudiosos do assunto. Para Pereira da Costa ela seria de origem "francesa"; para Mário Melo, seria "holandesa"; para a maioria dos que falam da lenda, sua origem seria mesma alemã, embora o único registro de presença alemã mais ou menos longa é a de um solitário navegador, no século XVI.

“Não saias, meu filho, de noute na rua; não saias sozinho, não vagues atoa: olha que a noute divagam fantasmas. Divagam sem trilho: Não saias, meu filho, Que podes topar cruel "Alamoa". (FONTE: Fragmento do poema “Alamoa”, de Gustavo Adolpho Cardoso Pinto, final do século XIX).

As mães aconselhavam os filhos que não saíssem para passear nessas noites perigosas, pois a "malvada" Alamoa poderia enlouquecê-los de amor e matá-los de terror". Aqueles que se deixassem enredar nessa teia de sedução, estavam expostos à maldição da sereia de "mãos longas e pálidas" , " de abraço gelado e aterrador contato" , somente vencido se uma clarão de raio iluminasse o lugar fazendo desaparecer o encanto. (FONTE: Textos da obra "Fernando de Noronha - Lendas e Fatos Pitorescos", publicado em 1ª edição pelo Instituto Nacional do Livro / MEC, em 1988).

Poetizada no século XIX pelo consagrado poeta e folclorista Gustavo Adolpho Cardoso Pinto8 e no século XX por Ferreyra dos Santos (FONTE: O fundador da Academia de Artes e Letras de Pernambuco que, em 1955, poetizou a lenda), foi musicada por Capiba10 que, encantado com a lenda, transformou a poesia de Ferreyra dos Santos em canção, gravada pelo ator e cantor Carlos Reis, atual diretor do espetáculo "Paixão de Cristo", em Nova Jerusalém , Pernambuco. Foi também inspiração para o teatrólogo e jornalista Luiz Maranhão Filho, que fez dela uma peça para teatro. E, em 1995, foi carnavalizada na Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, no Rio de Janeiro, em carro alegórico, como uma bela e gigantesca sereia, pelo carnavalesco Ilvamar Magalhães, que a personificou - no destaque do carro - com a apresentadora da TV Globo, Angélica.

Em 1980, a 'Alamoa" voltou aos seus domínios... Não mais para inspirar terror nem enfeitiçar prisioneiros desavisados, mas para trazer alegria. E chegou dançando, frevando, sacudindo sua cabeleira "nórdica", como uma folia dos nossos tempos. Nela nada havia da assustadora figura mítica, que tanto medo despertou... Essa "Alamoa" risonha e bonachã, voltou encantada em forma de boneca-gigante, para brincar carnaval, para preceder o cortejo de bonecos igualmente grandes, guardando - no seu retorno permitido - o rastro forte de magia e de mistério, ué a fez nascer no coração dos homens do passado, para povoar a solidão de suas vidas sem mulheres, sem sexo. No Boletim da Comissão Catarinense de Folclore de dezembro de 1990, a "Alamoa" está descrita e lindamente exibida em bico-de-pena.

"Alguns, enredados na teia de mistério que cerca os relatos sobre a Alamoa, imaginaram histórias que justificassem o seu aparecimento no saber do povo ilhéu. Houve quem a acreditasse fruto de um amor proibido entre um holandês e uma brasileira...".

Certamente, o terror existia no coração de cada um dos que precisavam viver em Fernando de Noronha. E foi esse medo do desconhecido que levou para o plano sobrenatural os ruídos das noites noronhenses, os clarões a iluminar recantos talhados em pedra..." (FONTE: Boletim nº 42, ano XXVIII, dezembro de 1990, do Boletim da Comissão Catarinense de Folclore. Texto da autora dessa coletânea).

No texto publicado em Santa Catarina, fica claro que a Alamoa nascia muito mais no coração de cada prisioneiro, de cada militar segregado, de cada um forçado a uma permanência não-procurada mas aceita, por força das circunstâncias. Mesmo nos dias atuais, ela pode ressurgir naquele que se deixar vencer pelos seus medos, colocando-os para fora de si, sem condições de superá-los...

E é ainda essa lenda a grande inspiração dos poetas de agora, como uma herança apreciada e merecedor culto nossos dias.

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